Worklover x workaholic


Worklover x workaholic

por Profº Heinz

Conta-se que um riquíssimo empresário, numa de suas poucas férias na praia, fez algo fora do normal. Inquieto, com celular à mão e sentado debaixo de seu guarda-sol, João ouviu um vendedor de cocos oferecer seu produto em alto e bom tom.

Aquele anúncio despertou sua curiosidade. Resolveu se aproximar do vendedor de cocos e logo percebeu que ele estava em um caminhão inteiramente carregado da fruta. Após um rápido levantamento, perguntou:
— Quanto custa um coco?
— R$4,00.
— E dois cocos?
— Faço três por R$10,00.
— E 100 cocos?
— Faço por R$200,00
— E o caminhão todo?
— Como?
— Sim, todos os cocos e o caminhão também.
— Quer comprar meu caminhão e os cocos?
— Isso mesmo. Faça o preço que eu pago à vista.

Para encurtar a história, João realmente comprou todos os cocos com caminhão e tudo. Além disso, passou a vender os cocos durante sua estada na praia. Vendeu toda a carga e com o lucro pagou todas as despesas das férias com a família. Só não vendeu o caminhão por ele se encaixar perfeitamente no trabalho de uma de suas fazendas. Dizem que, para a família (mulher e dois filhos adolescentes), foram as legítimas férias frustradas. Já para João, pura diversão. Será João um worklover ou um workaholic? Difícil afirmar, pois seria necessária uma pesquisa mais aprofundada do perfil de João. Também não é possível saber se João é verdadeira e integralmente feliz ou se preenche seu vazio existencial com trabalho. Bem, mas o que é um worklover ou um workaholic?

Segundo o psicólogo Wanderley Codo, “o workaholic é um verdadeiro viciado no trabalho; sua motivação por ele é muito alta, seu foco é o trabalho em si, mas sua insatisfação é permanente. Se a vida profissional vai mal, sofre, adoece e tem dificuldade de reconhecer que precisa de ajuda. Geralmente trabalha muitas horas por dia e descuida-se da vida pessoal e da saúde. Foge dos problemas pessoais, familiares e se distancia do social. Sua vida se resume em afundar-se no trabalho, imaginando que isso é ser produtivo e que será, ou está sendo, reconhecido por isso. Já o worklover é um apaixonado pelo trabalho, pois vive satisfeito com suas realizações e é mais aberto ao lidar com as dificuldades que surgem. Se as condições do trabalho vão mal, busca ajuda, em vez de criticar ou esmorecer. Esse ‘amante’ trabalha muitas horas por dia de forma produtiva e nem percebe o tempo passar, sendo que essa satisfação se estende à sua vida pessoal”.

Bem, o que os dois perfis têm em comum é que ambos trabalham muito e, na maioria das vezes, conquistam prestígio profissional. Entretanto, enquanto o workaholic acaba destruindo sua saúde, família e relações sociais, o worklover consegue equilibrar trabalho, saúde e família. Talvez o primeiro fique materialmente mais rico, pois está voltado para o ter, mas tende a ficar só e infeliz. Acredito que ser worklover ou workaholic não seja uma questão de certo ou errado. É uma escolha, nem sempre consciente. E, por ser uma escolha, sempre haverá um preço a pagar.

Ser um worklover é obviamente recomendável, pois mesmo para uma empresa, no longo prazo, não é tão produtivo ter um profissional workaholic em sua equipe. Um workaholic que ocupa uma posição de liderança, por exemplo, pode desmotivar sua equipe com ligações telefônicas em plena madrugada, reuniões intermináveis nos finais de semana ou feriados. Com o tempo, essa equipe passa a produzir menos e a enxergar a empresa e o trabalho como um grande castigo.Assim, nem para os acionistas o workaholic é um bom negócio no longo prazo, pois isso pode passar para o mercado a imagem de uma empresa que explora seus funcionários e que busca o lucro a qualquer preço. Por ter problemas com a família, a qual pede atenção e carinho, o workaholic vem para o trabalho carregado de emoções negativas, as quais fazem pressão e diminuem ainda mais sua eficácia no trabalho.

Na verdade, o workaholic precisa de auxílio, pois, como já dito acima, ele está se destruindo. Precisa entender que a vida não se resume a trabalho, mesmo que esse trabalho, para ele, signifique prazer. Aliás, todo viciado sente prazer imediato em seu vício, o qual logo é substituído por uma sensação de vazio e frustração. Esse estado negativo é novamente preenchido com mais trabalho na esperança de um alívio existencial, formando um ciclo vicioso interminável. Talvez o primeiro passo para um workaholic deixar de sê-lo seja descobrir prazer em outras atividades – família, amigos, lazer, etc. – e não apenas no trabalho. A gestão do tempo também é um item fundamental, pois através dela ele passa a distinguir o que é importante e o que é urgente, conquistando produtividade, desempenho e resultados. É importante lembrar que movimento não é produção, pois muita gente anda de um lado para o outro, sobe e desce, mas não produz nada ou muito pouco.

Além disso, pressa não é velocidade, é pura desorganização e inconstância. Já velocidade é constância, oriunda de planejamento e organização. Essa situação é muito bem visualizada nas estradas, onde é comum vermos motoristas apressados que fazem verdadeiras loucuras na pressa de chegar. Estressam todos que estão em seu veículo e são um perigo para o trânsito e a vida dos outros. Já o motorista que tem mais constância, por planejar e organizar seu trajeto, faz de sua viagem um passeio, livre de estresse, com menos riscos e produtivo.

Mas aí vem uma questão: e quem não é nem workaholic nem worklover? Tais profissionais são, na verdade, a maioria. Não trabalham nem por vício nem por amor, e sim por sobrevivência. Nas minhas palestras, costumo dizer que é preciso amar o que fazemos e que esse amor à profissão vem do orgulho que sentimos ao descobrir a importância do que fazemos. Portanto, dar significado ao que se faz é o primeiro passo para sentir orgulho e amor pelo trabalho. Quando amamos o que fazemos, suportamos a parte negativa da profissão. Aliás, toda e qualquer profissão tem alguma faceta não tão prazerosa, mas, quando a amamos, absorvemos mais facilmente tais aspectos.

Empresas que possuem worklovers em sua equipe têm uma grande vantagem competitiva, pois tendem a ter profissionais mais motivados e produtivos. Isso conduz a um ambiente psicológico positivo e a grandes resultados qualitativos e quantitativos. Claro que é um grande desafio buscar tal ambiente. Também não acredito que exista alguma empresa formada apenas por worklovers. Mas é fundamental perseguir a construção de tal realidade. Aliás, nem todas as profissões facilitam a adoção do estilo worklover. Profissões puramente operacionais têm mais dificuldade nessa área. Já profissões que possuem componentes mais criativos e abertos são mais aptas para tal. O worklover sente que “pode modificar o mundo com seu trabalho”, ou seja: sente-se realizado ao colher os frutos de seu esforço.

Bem, muitas pessoas apenas reproduzem modelos que são bem-vistos pelo senso comum. Sermos nós mesmos e sempre querer evoluir, num processo de expansão contínua, é muito saudável. Isso exige mudança, adaptação e flexibilidade. Como diz Gabriel, O Pensador: “Seja você mesmo, mas não sempre o mesmo”, acredito que existimos para sermos felizes e que tal felicidade vem do equilíbrio entre os vários componentes da vida.

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